14.12.09

LUTANDO CONTRA SI PRÓPRIO


  • Filme: O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox, Estados Unidos/Grã-Bretanha, 2009)
  • Direção: Wes Anderson
  • Elenco: George Clooney, Meryl Streep, Jason Schwartzman, Bill Murray, Wally Wolodarsky, Eric Anderson, Michael Gambon, Willem Dafoe, Owen Wilson

O longa de animação em stop-motion é surpreendente em todos os aspectos - não só pelas origens mas também por seus resultados sobre o espectador. Parece uma fábula infantil, mas os adultos a curtem mais por causa da lição de moral que inexiste nela. Por isso, é tão diferente e justamente aclamado como um dos melhores filmes do ano.

O sr. Raposo decide renunciar a seus instintos quando sua esposa lhe diz estar grávida, durante mais um de seus costumeiros roubos de aves. O tempo passa, o filho cresce, Raposo se torna um respeitado colunista de jornal... mas ele continua lutando contra seus instintos naturais. Tanto que muda-se com a família para uma nova casa, uma árvore que fica em frente a três grandes fazendas - duas delas, criadoras pecuárias, e a outra, produtora de cidra. Assim, tem um ousado plano que põe em prática junto com um sobrinho e um empregado... que pode trazer consequências imprevisíveis.

É um filme que faz pensar, com o perdão do clichê. Quem pode lutar contra sua própria personalidade? Como mudar o que já está estabelecido pela natureza? Não é impossível, mas é muito difícil vencer essa árdua batalha.

12.12.09

HÁ SETE ANOS ADUBANDO A VIDA

"Eu não quero saber se o [prefeito de São Luís] João Castelo é do PSDB. Se o outro é do PFL (sic). Não quero saber se é do PT. Eu quero é saber se o povo está na merda e eu quero tirar o povo da merda em que se encontra."

Luiz Inácio Lula da Silva, durante discurso no Maranhão. Pois é, depois do "sífu", agora não falta mais nada.

6.12.09

PERDEU, "PLAYBOY"

Na seção de cartas dos leitores, na edição de agosto passado da revista Playboy. Percebe-se que a revista é, no mínimo, uma péssima adivinha. Se bem que nem precisaria entender muito de futebol.

4.12.09

AS PIADAS NUNCA SUPERAM A REALIDADE



Causou celeuma quando foi exibida aqui no Brasil, pelo canal pago GNT, a entrevista dada pelo ator Robin Williams (nascido em Chicago) a David Letterman, quando ele disse que "Chicago levou a Copenhague Hillary Clinton e Oprah Winfrey, mas o Rio levou strippers e pó para conquistar os delegados do COI e ganhar o direito de sediar as Olimpíadas de 2016. Assim ficou difícil". Piada de gosto duvidoso (quase uma redundância), mas polêmica desnecessária.

Desnecessária por vários motivos. Os humorísticos são os primeiros: por que esperar que um estrangeiro famoso conte uma piada que nos seja favorável? Além do mais, nós brasileiros costumamos também contar anedotas pesadas e nunca nenhum gringo reclamou do nosso senso de humor.

Mas o maior desses motivos é que nenhuma piada é mais forte que a própria realidade que nos cerca. Ou será que os seguidos apagões, a fama de sexistas, os dólares de propinas nas cuecas e meias, a crise política e muitas outras coisas não fazem o Brasil ser o país da piada pronta? Nosso país, como sabemos, é uma farta matéria-prima para comediantes - não só os daqui, é bom que se diga.

27.11.09

TEIMOSIA, MALDADE OU COERÊNCIA ATÉ DEMAIS?



O golpe em Honduras, felizmente, não trouxe maiores consequências no que se refere às eleições presidenciais, que serão realizadas neste domingo. O presidente interino do país, Roberto Micheletti, afastou-se temporariamente do cargo, a fim de não atrapalhar o período eleitoral. Ou seja, não há a expectativa de uma ditadura que atinja o país centro-americano - temor que chegou à tona depois da retirada de Manuel Zelaya do poder.

Mas não é que, mesmo assim, o governo brasileiro insiste em dizer que não reconhecerá como presidente eleito aquele que obtiver o maior número de votos (de forma direta, ressalte-se)? Isso a ponto de se desentender, através do assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, com o governo dos Estados Unidos - o assessor declarou-se "frustrado" com os norte-americanos por sua atuação na América Latina, em especial na questão hondurenha, por esta reconhecer as eleições depois de, inicialmente, condenar a derrubada de Zelaya por este querer mexer na Constituição do país para concorrer à reeleição, o que é expressamente proibido pela Carta Magna de Honduras.

Isso demonstra, mais uma vez, o completo desastre em que a diplomacia brasileira se transformou depois da chegada ao poder do atual governo. É o caso de se perguntar se trata-se de uma teimosia completa ou uma inteira maldade. Prefiro constatar que é um, digamos, excesso de coerência, inclusive na incrível capacidade de escolher o lado errado, só para demonstrar "independência" das grandes potências, como fiz questão de lembrar no texto sobre a recepção, por Lula, ao presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, no início desta semana - poucos dias depois, a Agência Internacional de Energia Atômica aprovou uma resolução contra o Irã, por este insistir em não congelar o seu desenvolvimento nuclear. Vale ressaltar que o Brasil, sempre de olho numa vaga cativa no Conselho de Segurança da ONU, se absteve de votar... Pra termos uma ideia, até China e Rússia (aliados comerciais dos iranianos) votaram a favor da resolução da AIEA. Isso sem falar nos casos Sudão, Gaza, Battisti...

Sei que o Brasil tem todo o direito de ter sua voz. Só não pode fazer isso na base da birra e da ideologia barata.

26.11.09

APAGÃO BRAZILIAN FESTIVAL



Vem cá, vocês acham que é apenas coincidência um festival de quedas de energia que atormentam os brasileiros há duas semanas? Desde o mega-apagão de 10 de novembro, houve várias quedas em diferentes estados brasileiros - uma delas, na Zona Sul do Rio, durou cerca de 24 horas e chamou a atenção pela alta complexidade no trato dos diferentes níveis de governo e das empresas com a distribuição de energia elétrica. Nesta quarta-feira, foi a vez de regiões do Rio Grande do Sul sofrer com esse problema.

Por mais que o ministro das Minas e Energia (aquele que está lá como barganha do PMDB) tente explicar, assim como os secretários estaduais, nada nos convence de que as coisas estão bem. Mesmo porque a tendência é piorar, com a proximidade do verão e a necessidade de uso de energia elétrica para conter o calor. Temos que ficar de olho, pois desenha-se o enredo de um filme que ninguém quer estrelar...

24.11.09

O IRÃ PODE SER MAIS BEM ACEITO... MAIS PROVÁVEL QUE O BRASIL SE QUEIME DE VEZ



A recente visita ao Brasil do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, a fim de estreitar relações comerciais entre os dois países, pode ser interpretada de várias formas. Uma delas, a mais otimista, é a de que o carisma do presidente brasileiro pode ser determinante para uma melhoria das relações entre os iranianos e o Ocidente. Porém, considerando-se os seguidos e retumbantes fracassos da diplomacia brasileira nos últimos anos, parece-me pouco provável que isso vá acontecer.

Uma hipótese mais plausível é a de que o atual governo brasileiro quer afirmar um caráter mais, digamos, "independente" em relação às grandes potências ocidentais (Estados Unidos e União Europeia), que - não sem razão - estão com os cabelos em pé com essa aproximação entre brasileiros e iranianos. Afinal, Ahmadinejad representa um regime teocrático que governa o Irã com mãos de ferro há trinta anos, além de fazer declarações que cairiam melhor num boquirroto líder comunista stalinista e antissemita do que no chefe de Estado que ele é - ainda tem a questão do suspeitíssimo programa nuclear do país. Além disso, sua mal explicada reeleição - cujos protestos contra foram reprimidos com grande violência - não lhe dá procuração a fazer negócios comerciais com quem quer que seja, ainda mais com um regime que se pretenda democrático como o nosso.

Nenhuma surpresa no caso do governo brasileiro, infelizmente. Afinal, um país que se alia a ditaduras e se recusa a extraditar terroristas corre, no mínimo, um sério risco de cair em forte descrédito. Isso sem falar no caso do presidente deposto de Honduras na embaixada brasileira em Tegucigalpa. Como eu disse, o grande carisma de Lula pode até ser um trunfo a favor dos iranianos, para que sejam mais bem aceitos na comunidade internacional. O mais provável, porém, é que o Brasil acabe se queimando de vez...

21.11.09

O SUPREMO NEM TÃO SUPREMO ASSIM



Nesta semana, como sabemos, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o terrorista italiano Cesare Battisti deveria ser extraditado - porém, em outra votação, o próprio STF deixou a decisão nas mãos do presidente Lula. Conhecendo o vasto repertório petista em relação a direitos humanos - ou seja, somente os que interessam ao partido, como já demonstrado várias vezes pelo partido depois que assumiu o governo -, não é difícil concluir qual será a decisão presidencial... Se bobear, não só Battisti (culpado em seu país de cometer atentados terroristas na década de 70) fica como ganha status de refugiado político, pelo menos enquanto o PT estiver no poder.

Então, pergunto: de que adianta existir o Poder Judiciário se, no final, a decisão acaba nas mãos do Executivo? De nada adiantou meses de julgamento pelo STF, cujo resultado foi bem apertado pelo simples motivo de que a maior parte dos seus ministros foi nomeada pelo atual presidente da República - portanto, segue direitinho as normas lulopetistas. Seguindo essa tendência por mais tempo, não demorará muito para o Brasil virar uma Venezuela da vida, com uma democracia de fachada que encobre uma protoditadura socialista.

E ainda pode piorar: Mahmoud Ahmadinejad vem aí...

18.11.09

JÁ VAI TARDE, CESARE BATTISTI!


12.11.09

UM DOCUMENTÁRIO QUE VEIO PARA CONFUNDIR. E POR ISSO É BOM


  • Filme: Alô, Alô, Terezinha! (Brasil, 2009)
  • Direção: Nelson Hoineff

O documentário em homenagem a um dos maiores comunicadores que o Brasil conheceu - Abelardo Barbosa (1917-1988), o Chacrinha - é o perfeito espelho de seu homenageado: irreverente, jocoso, brincalhão, politicamente incorreto, chocante para alguns e genial para outros (ou, quem sabe, as duas características juntas!). Ele mostra com perfeição, com o auxílio de imagens de arquivo (alguns deles raramente mostrados na TV) e depoimentos de artistas, calouros, ex-chacretes e assistentes de palco, o espírito do Velho Guerreiro para se comunicar com o público através da televisão.

As partes mais interessantes se referem às próprias chacretes, que povoavam o imaginário masculino enquanto estavam na ativa. Com seus depoimentos coletados separadamente, elas entram em divergência acerca de polêmicas que as cercavam na época e cercam até hoje: afinal, elas se aproveitavam da fama para tirar vantagens em relação ao sexo oposto? Umas diziam que sim, outras negavam. De todo modo, a mistura de opiniões é salutar ao andamento do filme. É curioso constatar que, das ex-chacretes, apenas Rita Cadillac (a mais famosa delas) envelheceu bem, mantendo-se em evidência até hoje. As demais recolheram-se ao ostracismo, seja rememorando os momentos de fama, seja aproveitando a oportunidade para pôr a autoestima em dia - como na cena em que Índia Potira resolve se vestir, digamos, a caráter num chafariz de Paraíba do Sul...

Outro trecho hilário é em relação aos calouros, como o que se diz melhor que Roberto Carlos, dizendo que ele não canta nada - o detalhe é que basta o calouro começar a cantar para que concluamos ser um caso de falta de noção, mesmo. Ou o incrível encontro entre dois calouros gagos, ou de um ex-imitador de Liza Minelli, ou os que passaram pelo programa e tentam até hoje um lugar ao Sol no mundo da fama. Outro destaque é a demonstração das várias versões acerca da origem do mais famoso bordão do Velho Guerreiro, que dá nome ao filme. De todo modo, o documentário mostra como Chacrinha era um apresentador que divulgava o cancioneiro popular, acima de tudo. E que o humor que o programa exalava, infelizmente, não tem espaço nos tempos tão politicamente corretos de hoje.